A chegada das duas dog coins ao top 10 do ranking de criptomoedas dividiu opiniões: enquanto alguns apontaram à irracionalidade do mercado, outros as veem como um movimento de ressignificação do dinheiro a partir da cultura das redes sociais.

Um ano no mercado de criptomoedas é quase uma eternidade, ainda mais durante ciclos de alta. Há muitas perspectivas possíveis para analisar 2021, quando setores inteiramente novos surgiram na indústria e projetos que foram criados a partir de forks do Bitcoin (BTC) parecem estar finalmente começando a perder valor rumo ao desaparecimento.

Há mais ou menos 10 anos atrás, pensar em cópias aprimoradas do Bitcoin era a única coisa que se podia fazer. Que elas tenham sido bem sucedidas por um tempo e depois falhado, reforça o valor da ideia original de Satoshi Nakamoto.

Ao rever 2021 sob uma perspectiva distanciada no futuro, será impossível ignorar a ascensão dos “criptomemes”, moedas sem propósito de utilidade e, portanto, supostamente dotadas de pouco valor intrínseco, cuja apreciação se baseia na adoção e na crença de uma comunidade formada a partir das redes sociais.

Originalmente, o Dogecoin (DOGE) surgiu como uma proposta de inovação no então pouco diverso mercado de criptomoedas. Criada pelo gerente de marketing de produtos da Adobe, Jackson Palmer, e pelo engenheiro de software Billy Markus, no final de 2013, a ideia da dupla era criar a criptomoeda “mais ridícula possível”.

Com este propósito em mente, os criadores escolheram como símbolo um meme popular da internet: um cão da raça japonêsa Shiba Inu e estabeleceram um suprimento total de 100 bilhões de moedas para torná-lo indesejável enquanto um ativo financeiro, evitando assim que ela se tornasse “coisa séria”. Depois, acabaram decidindo que o DOGE teria um estoque ilimitado para promover o uso do token e desencorajar que as pessoas o guardassem.

O Dogecoin foi lançado em 6 de dezembro de 2013 e se tornou instantaneamente um sucesso na então pequena comunidade cripto justamente pela novidade contida em sua proposta. Como normalmente acontece com as criações que se tornam populares, seu destino escapou ao desejo original dos criadores e se tornou algo muito maior e inesperado.

Talvez o Dogecoin possa ser considerado a primeira forma divertida de dinheiro. Podia ser minerada facilmente, custava frações de centavos de dólar e se apresentava como uma paródia de todas as outras criptomoedas. Imediatamente, o DOGE tornou-se um novo experimento através do qual as pessoas podiam interagir e brincar com essa nova classe de ativo financeiro inaugurada pelo Bitcoin.

Assim, antes do fim de 2013, o Dogecoin já valorizara-se em 300%, e em janeiro, por um breve momento, o volume de negociação do DOGE chegou a ultrapassar o do Bitcoin.

US$ 1,00 em 2021?

Curiosamente, a virada deste ano viu uma mobilização semelhante à de 2013, graças às postagens de uma eminente celebridade que se tornaria a personalidade mais importante do mercado cripto em 2021: Elon Musk.

A aproximação de Elon Musk da comunidade do DOGE ocorrera em setembro de 2018. No ano seguinte, ele fez sua primeira declaração de amor ao criptomeme no Twitter após ter sido escolhido o novo CEO do Dogecoin em uma votação não oficial no dia 1º de abril: “O Doge talvez seja minha a criptomoeda favorita. É muito legal”, declarou.

Às vésperas do natal de 2020, Musk publicou uma postagem que imediatamente fez o DOGE subir 25%, inaugurando seus esquemas – deliberados ou não – de pump and dump de ativos digitais.

Nos comentários, ele ainda sugeriu que o DOGE poderia um dia se tornar a moeda oficial de Marte. Este tweet foi a primeira amostra do poder tamanho que Musk teria para influenciar o mercado de criptomoedas com suas postagens ao longo de 2021.

A partir dali começaram a surgir apelos para que o CEO da Tesla ajudasse elevar o DOGE a US$ 1,00, sendo que naquele 20 de dezembro o criptomeme fechara cotado a US$ 0,0046. Estava estabelecido o objetivo para 2021.

Em paralelo ao fenômeno WallStreetBets, que abalou o mercado tradicional com a suposta manipulação coletiva do preço da ação da Gamestop em janeiro, Musk, sozinho, fez o DOGE disparar 800%, atingindo US$ 0,08, com uma postagem da imagem de um cachorro na capa da revista “Dogue”.

Um dia depois de o Bitcoin chegar à máxima histórica de US$ 64.854, Musk reativou seus poderes para promover um novo pump do DOGE. Desta vez, valendo-se de uma imagem incônica postada sob a legenda: “doge latindo para a lua”. Mais uma vez o impacto foi imediato e o Dogecoin subiu 260%, configurando aquela que seria a maior alta intradiária do criptomeme em 2021.

Shiba Inu

Assim como o Bitcoin inspirara diversas criptomoedas a copiar os seus fundamentos, a ascensão do DOGE no primeiro semestre de 2021 incentivou o surgimento de diversos projetos utilizando cachorros como mascote sem qualquer outro propósito econômico ou tecnológico na tentativa de replicar o sucesso do criptomeme original.

Um deles foi ostensivo ao ponto de utilizar um cão da mesma raça do Dogecoin como símbolo e se apresentar como “Doge Killer”. Nunca chegou a ficar claro se por coincidência ou delberadamente, o Shiba Inu (SHIB) acabou se beneficiando do chamado “Efeito Elon” em seu primeiro impulso de crescimento.

No começo de março, o Shiba Inu movimentava menos de US$ 1 milhão por dia e não figurava entre as 200 maiores criptomoedas por capitalização de mercado. Em 14 de março, Elon Musk anunciou no Twitter que estaria comprando um Shiba Inu, acompanhado da hashtag misteriosa #resistanceisfutile (resistência é fútil).

A postagem não teve efeito significativo sobre o preço do DOGE, mas o SHIB subiu 300%, e o seu volume diário de negociação chegou a US$ 41 milhões. Embora pequeno, o movimento chamou atenção na época.

A história dos dois criptomemes viria a se cruzar definitivamente em maio, transformando-se em rivalidade séria. No começo do mês, pela primeira vez na história pesquisas por Dogecoin no Google superaram buscas por Bitcoin, sinalizando que algo grande para a moeda favorita de Elon Musk estava por acontecer.

Após uma breve correção que se seguiu ao topo de abril, o Dogecoin iniciou um rali de alta no último dia do mês que só teve fim quando o DOGE atingiu a máxima histórica que ostenta até hoje: US$ 0,74 em 8 de maio.

Na ocasião, tornou-se também a quarta maior criptomoeda por capitalização de mercado. Uma forte correção veio logo em seguida, derrubando o Doge para US$ 0,45 apenas três dias depois.

Um novo impulso de Elon Musk conseguiu reverter a tendência de baixa por um breve momento depois que ele fez uma postagem perguntando se a Tesla deveria aceitar o DOGE como meio de pagamento. Embora não se soubesse àquela altura, a época do ouro do Dogecoin havia passado, não sem antes ter feito novas fortunas para aqueles que realmente acreditaram na moeda canina, inclusive um brasileiro autointitulado o milionário do DOGE e o criador do Ethereum (ETH), Vitalik Buterin.

Ironicamente, a queda do Dogecoin coincidiu com a ascensão definitiva do rival Shiba Inu, que atraiu muitos investidores que haviam perdido o bonde do DOGE e mergulharam de cabeça no SHIB com a fé de se tornarem ricos com o próximo criptomeme canino.

Na esteria da euforia da máxima histórica do Dogecoin, entre 7 e 10 de maio o volume de negociação diário do Shiba Inu saiu da faixa de US$ 376 milhões e atingiu o pico de US$ 14,5 bilhões, enquanto o token se valorizava em 1.900%, impulsionado entre outras coisas pela listagem na Binance.

Tão rápido quanto subiu o Siba Inu caiu depois que Vitalik Buterin decidiu queimar 90% dos SHIB que os desenvolvedores do projeto lhe haviam concedido e doar os 10% restantes para caridade.

No entanto, o golpe fatal aos criptomemes caninos seria dado pelo seu principal apoiador. Em uma reviravolta em sua relação conturbada com os bitcoiners, Elon Musk retirou seu apoio à maior criptomoeda do mercado afirmando que a Tesla não poderia aceitar Bitcoin como meio de pagamento devido aos prejuízos ambientados causados pelo gasto energético da mineração. Como resultado, o bilionário derrubou de forma ampla e generalizada um mercado que já vinha sofrendo com a fuga de capitais desde as altas históricas do Bitcoin e do Ethereum entre abril e maio.

Em retrospectiva, a guerra declarada entre Musk e a comunidade de criptomoedas, exceto os adeptos das dog coins, marcou também o inicio da derrocada do poder do CEO da Tesla para manipular o mercado através do Twitter.

Em junho, com o mercado em baixa, uma postagem do homem mais rico do mundo sobre o nome do seu novo cão da raça Shiba Inu fez com que o SHIB disparasse 27% e o seu volume de negociação crescesse 128% em 24 horas.

Em julho, ele conseguiu fazer com que o DOGE alcançasse um pico fugaz de 8% depois de afirmar que o Dogecoin seria mais eficiente como meio de pagamento do que o Bitcoin e o Ethereum. Em ambos os casos, porém, foi insuficiente para reverter a tendência de baixa da qual ele era em parte responsável.

Flippening dogs

No final de julho, observaram-se os primeiros sinais de reversão da tendência de baixa do mercado e os criptomemes também ensaiaram uma recuperação. Nas duas primeiras semanas de agosto, tanto o DOGE quanto o SHIB registraram altas expressivas, mas ambos acabaram revertendo esses ganhos ao longo do mês de setembro.

Outubro iniciou-se com a recuperação definitiva do mercado como um todo e os criptomemes acompanharam o movimento geral, porém em proporções absolutamente destoantes. No dia 3, no primeiro fechamento semanal do mês, o Shiba Inu era a 47ª criptomoeda em termos de capitalização de mercado, com um total de US$ 3,37 bilhões, enquanto o Dogecoin ocupava a última posição no top 10 do ranking, com US$ 29,6 bilhões. Até o final do mês, isso iria mudar e Elon Musk voltaria a ter papel importante nesta história.

A capacidade de Musk para influenciar o mercado como um todo, para cima ou para baixo, vinha em declínio no segundo semestre. No entanto, entre os adeptos dos criptomemes, ele ainda era uma referência fundamental. Em um primeiro momento, o SHIB se beneficiou disso. Mais tarde, acabou sendo responsável por mostrar que Musk já não é mais assim tão relevante para ditar o sentimento do mercado.

Em 6 de outubro, Musk publicou uma foto de seu Shiba Inu de estimação e o mercado respondeu impulsionando uma alta de 60% do SHIB e em 9 de outubro o “Doge Killer” chegou ao top 20 do ranking, acumulando uma capitalização de mercado de US$ 10,3 bilhões.

Após duas semanas de baixa volatilidade, o Shiba Inu explodiu na sequência da renovação da máxima histórica que o Bitcoin cravara em abril, repetindo o roteiro da ascensão do Dogecoin no primeiro semestre. Enquanto o rival crescia na última semana de outubro, o criptomeme original manteve-se adormecido, apesar de uma alta esporádica acima de 9% em 27 de outubro.

Uma das forças por trás do rali de alta do Shiba Inu foi a expectativa da listagem do token na exchange Robin Hood, a mesma envolvida na polêmica do caso Game Stop no início do ano. Alguns analistas sugeriram que traders estariam trocando o DOGE pelo SHIB para capturar a potencial valorização motivada pela listagem.

Mesmo postagens de Musk revelando que não possuía o ativo em seu portfólio e elogoiando o DOGE acabaram se mostrando irrelevantes, apesar de uma queda pontual de 20% do SHIB. Entre 23 e 28 de outubro, o Shiba Inu subiu 209% em um rali de alta rumo à máxima histórica de US$ 0,00008854.

Em 27 de outubro, o Cointelegraph Brasil publicou a história de um investidor que comprara US$ 3,4 mil em Shiba Inu que se transformaram em mais de US$ 1,5 bilhão. Assim como o Dogecoin antes, agora o Shiba Inu tinha seus próprios milionários.

Apenas em outubro, os traders do SHIB acumularam ganhos de 1.200% e no final do mês o “Doge Killer” havia cumprido a missão de entrar no top 10 e ultrapassar o Dogecoin no ranking de criptomoedas por capitalização de mercado.

A preponderância do SHIB sobre o DOGE durou pouco, mas esta guerra particular das dog coins ainda não acabou. De qualquer forma, os dois terminam 2021 em baixa, fora do top 10, mas muito maiores do que que quando o ano começou. E, talvez mais importante, entregando retornos anuais muito superiores aos das duas maiores criptomoedas do mercado. Do início de janeiro até agora, o Dogecoin valorizou-se em 3.442%, e o Shiba Inu, em mais de 30.000%.

Dogecoin, o original, e Shiba Inu, o arrivista, disputam o posto de criptomoeda oficial de uma cultura que tem nos memes sua máxima expressão: poderosos e fugazes, alimentandos por comunidades digitais e personalidades midiáticas cuja força e crença é capaz de redefinir as atribuições do que têm ou não valor na sociedade contemporânea.

À medida que essa cultura torna-se dominante, uma piada pode se tornar mais valorizada do que empresas e até países inteiros, coisa que os criadores do Dogecoin jamais imaginaram, mas provavelmente os do Shiba Inu já tivessem consciência quando o conceberam com o propósito único de roubar o lugar da dog coin pioneira.

No futuro, quando a história do recente ciclo de alta for contada, será impossível ignorar que, entre outras coisas, 2021 foi o ano dos criptomemes.

Por: Caio Jobim

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